quarta-feira, 20 de maio de 2015

Reinventar a felicidade

A minha avó Teresa hoje faria 100 anos.
A minha avó na festa dos seus 90 anos
Sinto uma saudade imensa mas não escreverei nada lamechas, não era o seu género! Fica apenas o que tenho em mim, que herdei desta minha avó, o prazer de aprender e de ensinar, a paixão pela leitura, pelas viagens, pelo mar e pelos trabalhos de mão. Sinto a sua presença em cada ponto que dou, em cada malha que faço, em cada mergulho que dou.

 


Senti a dor da sua perda duas vezes. A primeira quando deixou de me reconhecer fazendo-me sentir perdida no seu olhar. A segunda, há dois anos, que tornou definitivamente impossível o aconchego dos seus abraços. Hoje reinvento a felicidade, como uma vez a minha avó disse, e faço-o lendo o livro que um dia lhe pedi que escrevesse. Apesar de na altura já ter dificuldade em ver, ainda assim, não me disse que não e respondeu a todas as perguntas do livro e a muito mais! Partilho apenas uns retalhos das suas memórias, alinhavando-os de forma tosca, tentando dar-lhes forma, na sua forma incompleta. Monto assim, uma manta de palavras que retrata apenas uma ínfima parte da minha herança familiar, a mais preciosa, pois faz de mim quem sou, talvez mais do que a herança genética!
A minha avó, desde pequena, muito determinada!
Depois da 4ª classe, os meus pais achavam que uma menina não precisava de mais estudos, mas eu não estava de acordo. Claro que nessa altura tínhamos que ir estudar para o Porto que ficava a 12 km de Valongo. Nem pensar uma menina ir sozinha para tão longe! Eu levei 4 anos para os convencer, ganhei e aos 14 anos e meio consegui. Fui interna para o Colégio Nossa Senhora do Rosário.
Levava muitos trabalhos para fazer em casa?
Os trabalhos eram feitos na hora de estudo.
Fiz o 1º ano em 3 meses, entrei no colégio no dia 15 de Abril e fui para férias no dia 15 de Julho com a única distinção que houve nesse 1º ano no colégio. Não é vaidade mas sim o grande desejo que sempre tive de estudar. Depois fiz o 2º e 3º ano num só ano, o 4º e 5º outra vez num ano. Tive de me emancipar aos 18 anos para fazer exames. Tive de fazer as provas escritas e não pude dispensar de nenhuma oral, porque a essas davam-se o nome de "exames singulares". Até a desenho tive de fazer prova oral.
É verdade tive como colega a Sofia de Mello Breyner Andresen e ela dizia que eramos as companheiras da desgraça porque faziamos os exames sempre no mesmo dia porque o nome dela começava por S e o meu por T e não eramos "Maria".

Que idade tinha quando deixou a escola? Já sabia o que queria fazer na vida?
Tinha 19 anos quando acabei o liceu. Nessa altura sabia bem o que queria. Queria tirar o curso de Românicas. Não havia faculdade de Letras no Porto e eu tinha de ir para Coimbra. Mas em Coimbra estava a estudar o António, Direito, e não passava pela cabeça dos meus pais deixarem-me ir para Coimbra. Falei então com o meu namorado que não achou piada à minha ideia de ir para Lisboa. E disse-me "Para que vais para Lisboa? Qualquer dia casamos". Senti que ao António não lhe agradava a ideia de eu ir para Lisboa. Pela 1ª vez na minha vida eu desisti de estudar, mas foi só naquele momento.
Entrou para a Universidade?
Sim, entrei na Universidade de Lisboa. Mas ainda estive 16 anos a sonhar com isso. Tinha 35 anos e 3 filhos. Em 1950 todos cá em casa fizeram exames, até o meu marido que, por causa do casamento e para se poder empregar só tinha tirado o bacharelato em Direito. Licenciou-se nessa altura. Eu estava a observar a alegria de todos e foi então que o meu marido disse: "Só tu não fizeste exame!". Eu respondi: "Porque tu ainda não quiseste.". Ele respondeu "Agora que os filhos já não precisam tanto de ti, podes fazer o que sempre quiseste". Era o dia 22 de Julho, levantei-me, fui junto dele e perguntei-lhe se o que ele estava a dizer era verdade. A resposta foi positiva. Nessa tarde fui à Baixa comprar pontos de exame do 7º ano, vim para casa e comecei a estudar. No dia 7 de Agosto fiz exame escrito de admissão à Faculdade de Letras. Tive 11 valores a cada disciplina. Não sei o dia em que fiz a oral. Sei que foi em Agosto. Estávamos na praia da Caparica. Vim com o meu marido a Lisboa fazer o exame. Quando cheguei à praia da Caparica os meus filhos tinham escrito com pinhões sobre a minha cama "Parabéns mãezinha". Foi uma grande alegria para todos.

Porque é que escolheu o seu curso?
Escolhi o meu curso porque sempre gostei muito de ler e depois de verificar quais as cadeiras, senti que estava no bom caminho. Literatura e História foram sempre as disciplinas que me encantaram.
Claro que me licenciei, só desisti uma vez e foi para fazer a vontade àquele que foi o meu marido durante 56 anos e namorei ainda 5 anos e meio!
Não esqueci o dia em que defendi tese, 14 de Julho de 1950, tinha 40 anos. Foi também um dia de muita felicidade para mim (consegui concretizar o sonho de mais de 20 anos), para o meu marido e para os meus filhos.
Quem preparou um belíssimo almoço foram as minhas filhas, Maria Teresa de 14 anos e Maria de Fátima de 12 anos com ajuda de uma empregada que eu tinha com 14 anos, a Isaura! O meu marido convidou para esse almoço 2 casais amigos. Nesse mesmo dia o Reitor do liceu Filipa de Lencastre convidou-me para fazer parte do júri do 2º ano, onde eu integrei a disciplina de Francês. Interessante, não acham?
Dois dias depois de me licenciar já estava a fazer o serviço oficial de exames.
Bons tempos! De muito trabalho e de muita felicidade.

Que actividade principal desempenhou durante a sua vida profissional?
Além de Professora estive vários anos no Conselho Directivo de 2 Escolas: Gago Coutinho e Fernão Lopes. Fui Orientadora de Estágio durante 4 anos, Directora de Turma várias vezes, etc.
Além destas escolas estive na Eugénio dos Santos, Marquesa de Alorna, Filipa de Lencastre, Passos Manuel e em Oeiras onde me efectivei.
No dia 30 de Julho de 1985 cheguei a casa um pouco triste e alegre ao mesmo tempo. Triste porque foi o último dia que fui à escola, alegre, ou antes feliz, porque muitos dos meus colegas foram lá só para se despedirem de mim. Mas a maior alegria estava ainda para chegar. O meu marido levou-me à Baixa, o que me deixou surpreendida. Fomos à gaveta que tínhamos alugado no Banco e fiquei admirada quando me deu uma jóia. Disse-lhe que já me tinha dado o presente de aniversário e ele respondeu "Não, isto é para agradecer à minha esposa e mãe dos meus filhos que tanto me ajudou durante todos estes anos". Claro, caí nos braços dele a chorar de emoção.
 A minha avó, uma mulher apaixonada

 Quando é que teve o seu primeiro namoro?
Só tive um namoro com quem casei ao fim de 5 anos e meio.
Conheci-o na Foz do Douro no dia 4 de Agosto e no dia 18 pediu-me namoro. Ele escreveu numa pedra "Amo-a, serei correspondido?", e deu-ma. Eu fiz de conta que não percebi e atirei a pedra para o mar. Mas a que atirei para o mar, foi outra que também tinha na mão.
Fiz-me rogada e ele escreveu-me a repetir o pedido de namoro. Na 3ª carta dizia que se eu não aceitasse, com muita tristeza tinha de desistir. Eu aceitei, no dia 18 de Setembro.
Só ao fim de 8 ou 10 anos de casados, ele lembrou-se e disse-me "deitaste a pedra fora!". Eu achei graça e mostrei-lhe a pedra que ainda a tinha comigo. Ele ficou muito contente. Mas com as mudanças de casa acabei, com bastante desgosto, de a perder, mas ele nunca o soube. 

(...) O meu pai perguntou-me se gostava dele para casar. Gosto mesmo muito.E sabes se ele gosta de ti? Tenho a certeza absoluta! Então faz o que quiseres. E eu casei passados 2 meses.

Como ocupavam o tempo livre?
Quando casámos e quando o António já tinha estudado jogávamos ao Crapôt. Uma vez por semana jogávamos com os amigos ao Bluf, ao King, à Sueca ou à Bisca.
Eu passava bastante tempo a bordar e a fazer as roupas para os meus filhos. Também fazia muito tricot para os meus 3 filhos, para mim e para o meu marido. Até crochet fiz, mesmo sem gostar.
Mais tarde, quando a vida se tornou mais fácil fazíamos alguns passeios, mas sempre tudo muito equilibrado por causa do dinheiro.  
(No livro, a minha avó refere a viagem de sonho que ficou por realizar, um passeio pela Austrália. Sou mesmo parecida com a minha avó!)
"(...)em pé , sentadas , a rir, vale tudo desde que nãos se largue as agulhas!"
A minha mãe é a única que não está a tricotar, provavelmente por causa de mim, a única neta (além da minha irmã, ainda no carrinho) "forçada" a ficar junto dos adultos. O que teria eu feito, desta vez?!
 Tal como a minha avó fui para o ensino pelo prazer de ensinar. Estive 10 anos na escola em que se reformou e as colegas contavam-me que durante um tempo andaram intrigadas com o tricot da minha avó, pois ela andava dias e dias com a mesma meia ou camisola, apesar de aproveitar todos os intervalos para tricotar. Claro que depressa descobriram que a minha avó tricotava para os 11 netos (22 pés para calçar! todos com camisolas iguais!). Ainda tricotou botinhas para os bisnetos, deixando o resto do enxoval a cargo das avós.
 A minha avó era assim. A sua relação com os netos era de avó, a avó que mima e que não tem necessidade de tomar o lugar dos pais. Algo que se está a perder. Quando juntava os netos em casa, dava sempre "asneira"! 11 crianças, com idades próximas e ideias "geniais", precisavam de um cúmplice, que era a nossa avó, para camuflar os estragos que fazíamos. Tentava, então, o convencer o nosso avô que "Eles até nem se portaram mal!". Éramos um bando de crianças felizes com tendência natural para a "asneira".
 Os meus avós no meu casamento
 "E a sorrir
Devorámos o mundo
Num abraço
Tão profundo."
Da minha avó Teresa quero ter a sua garra e a arte de abraçar a vida com alegria. Recordo-a apenas revoltada com o destino quando perdeu o meu avô, mas, à  sua maneira, reinventou a felicidade, na família, nos laços que criou com os 3 filhos, ou melhor 6, como gostava de dizer, os 11 netos (o Nico sempre presente apesar de ausente) e os 22 bisnetos (entretanto nasceu o 23○)

Avó, hoje a família "reinventa a felicidade" e reunidos comemoramos a tua Vida e juntos rimos partilhando as tuas, as nossas, memórias, embarcando numa viagem para um outro tempo, aquele em que eras a nossa cúmplice de brincadeiras.

terça-feira, 19 de maio de 2015

Do dia da Mãe

Para mim, dos meus filhos, um presente carregado de significado, o livro "A Manta", do Planeta Tangerina, com dedicatórias lindas!
Um livro para uma mãe que adora uma boa história e que anda fixada em alinhavar retalhos! Os meus pontos são irregulares e reflectem o meu estado de espírito! Pontos dados no final de um dia exaustivo, são mais irregulares. Pontos dados em dias menos bons, reflectem uma certa tensão no fio. Para disfarçar as irregularidades, sirvo-me dos padrões dos retalhos e "invento" formas. Outro truque que estou a utilizar é começar pelo topo da manta, para quando o painel estiver na parede, as irregularidades ficarem mais longe do alcance dos olhares. Espero que esta última estratégia não dê asneira!



Devo à Rosa Pomar, o ter me ensinado a terminar este painel. Durante o primeiro (para mim) workshop também se falou neste livro. Tenho pena de não ter juntado os retalhos com a técnica que a Rosa ensina, pois seria bem mais fácil o quilting à mão.O grupo a que me juntei, já no final, era de artistas e bem animado, por isso é tão bom aprender em grupo!

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Tricotar a cores

 Tricotando as Caneleiras Miletinas (adaptação das Perneiras da Serra de Ossa), sinto que o mais simples é "lançar" o desenho ao ritmo das "laçadas". Tal como a Dona Miletina me disse, a lógica destes desenhos e padrões é fácil para quem bordou anos a fio ponto de cruz. Pressinto que os desenhos de jacquard, ou fair isle, para mim vão nascer e crescer com alguma naturalidade. A minha dificuldade reside em controlar a tensão de ambos os fios. Dificuldade que julgo que, com alguma prática, rapidamente ultrapassarei. No entanto achei melhor colocar de parte os autodidactismos e decidi ir aprender com quem sabe e com quem tem gosto em ensinar, a Rosa Pomar. Nada melhor do que aprender num convívio agradável, tendo como professora,  uma profissional que nos transmite o entusiasmo de "brincar com as cores", a teoria e prática da junção das mesmas, a história e a "expansão geográfica" ( falta-me o termo!) do jacquard.
 No workshop, a Rosa deu-nos umas dicas a fim de conseguirmos controlar a tensão dos fios e de arriscarmos na distribuição e variação de cores ao longo de um padrão. Para além disso aprendi o que é e como se faz intarsia e experimentei pela primeira vez cortar malha. Sim, leram bem, cortar, mais conhecido por steeks! Apesar de ser uma amostra, na hora de cortar, hesitei. Um dos erros que cometi foi no remate, em que dei um número exagerado de pontos!
Com prática chego lá. Toca a praticar, praticar, praticar...
O próximo passo, no mundo da malha, será aprender a tricotar uma camisola sem costuras e com jacquard! Gosto de desafios e sou ambiciosa nas minhas aprendizagens.

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Sashiko

Do workshop de Sashiko...
Inscrevi-me convencida que me iria ajudar no "quilting" à mão da minha manta, mas foi um erro. Aprendi alguma teoria, pratiquei neste pequeno projecto que guardei para utilizar, talvez num taleigo. Achei pouco tempo e penso que seria mais correcto da parte do Museu divulgar o workshop salientando que é formado por um conjunto de várias sessões. Penso que duas sessões numa só tarde, seria possível se o workshop não fosse apenas de 2 horas, tornando as "aulas" mais interessantes e mais práticas.
No blog Purl Bee (aqui), encontram um tutorial, que vos pode ajudar.
O que gostei mais, foi de voltar a estar com a minha amiga Ana Paula, do blog B'arte.

terça-feira, 12 de maio de 2015

Cheguei de véspera!

A família diz que ando sempre no Mundo da Lua. Eu digo que vivo no meu Mundo e que ando ao meu ritmo, tropeçando nalgumas pequenas distracções. Desta vez fui de véspera para o Museu do Oriente, aprender Sashiko! O pior era se tivesse chegado no dia a seguir! Fiz um telefonema e acabei a namorar nas margens do Tejo, nas Docas, num dia de semana. O inesperado tem outro gosto.
Devagar, regressei a casa, divagando. Como todos, com quem me cruzava, não sentia pressa para nada, embora tivesse um Mundo de coisas para fazer.







segunda-feira, 4 de maio de 2015

Quilting, na Serra de Ossa

O Pomar, da Praia das Maçãs

Faísca, o nosso primeiro cão.

Quilting ao som do coaxar das rãs, do cantar dos pássaros, dos chocalhos das ovelhas e cabras, é um pleno estado zen!
 Entretanto, cada um, a seu modo, vai deixando uma "marca" na manta!
O dedal da minha avó Teresa. A agulha, já "treinada", descansa presa a uma almofada de alfazema, nas margens do trabalho, que esconde uma medalha da Nossa Sra do Ar, protectora dos aviadores, tendo protegido o meu Pai nos seus voos.

sábado, 2 de maio de 2015

Feira de Estremoz, no Dia do Agricultor

Voltámos à feira de Estremoz, mas depressa percebemos que era o dia "dedicado ao turista", se é que me faço entender! Apesar de tudo fomos à caça do nosso tesouro, os almanaques da Bertrand, publicados nos anos em que as nossas mães nasceram. O tesouro estava escondido e teremos de lá voltar um outro dia!
Na feira, cada um chega à sua maneira.
 É uma feira onde se consegue comprar um pouco de tudo, a metro...
 ...ou a "balde".
Demos meia volta, desistimos da feira e entrámos por uma outra porta de Estremoz, visitando novas ruas e bairros da vila.
 
 

Pousada Rainha Santa Isabel
Rainha Santa Isabel



 Os alentejanos têm, injustamente, a fama de pouco trabalhadores. Aqui até os cães trabalham, este vigiando o ferro!

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Aldeia da Serra de Ossa

 Desde a minha primeira visita a esta aldeia de gente pacata, fiquei rendida aos seus encantos e à sua gente. Desta vez, mal cheguei, ainda nem tinha chegado a casa dos meus primos, fui convidada a entrar na Escola, agora sede dos caçadores da região e Centro de Saúde da Aldeia. 
 Enquanto explorava, um pouco mais, a aldeia e arredores conheci uma aldeã que se dedicava ao crochet, de uma forma que eu nunca tinha visto, com o fio passado por um alfinete ao peito, tal como na malha!
A fazer-lhe companhia, sentado num degrau a seu lado estava o marido. Já tive diversas vezes provas do orgulho destes homens alentejanos no trabalho das suas mulheres, picando-as para que mostrem mais dos seus trabalhos.

 Com um sorriso e olhar doce, a "crocheteira" foi-me mostrando algumas peças e o seu mostruário de pontos.


Apesar de os meus primos gostarem de preparar petiscos quando nos recebem, desta vez insistimos em voltar ao Restaurante da Serra de Ossa, onde aprendi que, outrora a aldeia era chamada  de Aldeia dos Pomares, e que o vinho do restaurante, "O  Forreta", deve o nome ao cão do dono do Restaurante.
  Há coisas engraçadas na vida das nossas aldeias! 

 A Aldeia da Serra, em plena Primavera conquista-nos à entrada e caminhando pela aldeia vou aprendendo e criando laços, com este povo alentejano.